22 de jan de 2009

AV. Pensilvânia: multidão ou minoria?

Sob sensação térmica abaixo de 10 graus negativos, mais de dois milhões de pessoas lotaram a Av. Pensilvânia em Washington para assistir a pose à presidência dos Estados Unidos por um negro.

A sociedade estadunidense foi formada por minorias através de conflituosas convivências entre guetos étnicos: afros, irlandeses, semitas judeus e árabes, italianos, asiáticos; entre outras descendências e indígenas, todos marginalizados.

Ainda mais reduzida, uma minoria capitalista dominou e se impôs aliando-se em interesses que, através da farsa de uma pretensa democracia e liberdade, periodicamente se alternou no poder.

Apesar dessa realidade, foi uma multidão multirracial que saudou esperançosa a pose de Obama. Esperança em quê?

A multidão da mais rica nação do planeta não haverá de ser formada por grande diversidade de segmentos sócio/econômicos, ainda que a crescente pobreza dos Estados Unidos tenha se acelerado nos últimos anos. Razão para se imaginar que a motivação maior da multidão para suportar o frio da esplanada Av. Pensilvânia, seria as esperanças na recuperação econômica do país. Ainda assim, não há ceticismo que negue a evidência de que por algo mais tantos jovens para ali acorreram, imbuídos das mesmas esperanças que motivaram seus pais e avós.

Haveria um reconhecimento de erros ancestrais? A conclusão da estupidez da intolerância racial? A vergonha pela truculência bélica? A covardia do abuso e da pretensão? A irresponsabilidade do consumismo? As prepotências que se diluem à beira do abismo social e econômico? O caos ambiental?

E que esperanças transportaram os olhos de uma inusitada multidão, pelos televisores de todo o mundo, à Avenida Pensilvânia? Apenas o glamour? A curiosidade do componente racial? A simpatia do casal? O colonialismo? A elegância da dama negra?

Ou mais que isso, o anseio pelo fim dos massacres no Oriente Médio? Um desejo de interrupção da tragédia humana da África? Das injustiças sociais na América Latina?

Possível deduzir nessa comoção internacional, algo além dos temores financeiros da Ásia e da Europa? Talvez algum grau de percepção de que o modelo político-econômico mundial, o sistema de relações entre as nações, as estruturas sociais, as formas e propostas de condução das sociedades, nos acelera a uma crise ainda mais aguda do que a que tanto preocupa os financistas, capitalistas e especuladores? Talvez, a esperança de que ao Obama se dignifique com o respeito negado à ONU?

A verdadeira democracia não cabe em nenhum invólucro eleitoral ou eleitoreiro, cabe apenas na multidão. E se a multidão decidir que Obama deve ser seu presidente, só não o será se ele próprio não passar de mais um títere, marionete.

Nesse caso, ou se os grandes conglomerados capitalistas não permitirem que presida os Estados Unidos pela multidão de seu próprio país e do mundo, a decepção e frustração daqueles que acompanharam sua caminhada ao lado da bela mulher pela Av. Pensilvânia, transformará essa multidão num monstro.

Então, sim, conheceremos uma verdadeira crise humanitária internacional. Talvez a última, pois provavelmente não restarão esperanças para novos desfiles na Av. Pensilvânia.


por Raul Longo
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